24 de nov de 2014

Atenção e sabedoria


Não se atenha ao passado.
E não se perca no futuro.
O passado não existe mais.
O futuro ainda não chegou.
Olhando atentamente para a vida como ela é,
aqui e agora,
o praticante obtém
estabilidade e liberdade.
Devemos ser diligentes (cuidadosos) hoje.
Porque amanhã será tarde demais.
(Buda)

Como podemos viver nossas vidas com sabedoria? Como podemos viver com sabedoria em qualquer circunstância, mesmo em meio às crises mais complicadas que assolam (destroem) nossas vidas? Como reduzir o número de arrependimentos que levaremos conosco? Como enxergar a vida com maior clareza? Como estar sempre em contato com quem somos e com aquilo que vivenciamos? Mesmo se pudéssemos fazer essas perguntas ao próprio Buda, provavelmente a resposta dele seria: “Pratique a Atenção Plena”.
Uma antiga escritura conta que um aluno perguntou a Buda: “O que é que oprime (escraviza) o mundo? O que torna a realidade tão difícil de enxergar? O que mais ameaça o mundo”?
E Buda respondeu: “A ignorância é o que oprime (escraviza) o mundo, e a insensatez (imprudência), o descuido e a avidez (ambição) escondem a realidade. A fome do desejo polui e obscurece o mundo, e o grande gerador do medo é a dor causada pelo sofrimento”.
O aluno continuou: “Em todas as direções, os rios do desejo estão fluindo. Como podemos represa-los, e o que os conterá? O que usaremos para fechar as comportas”?
Buda disse: “Qualquer rio desse tipo pode ser detido com a comporta da Atenção Plena. Com sabedoria torna-se possível fechar todas as comportas”.
A atenção Plena, que conduz à sabedoria, ajuda a nos manter centrados, mesmo durante os altos e baixos da vida que distraem a nossa atenção.
Mas seremos capazes de fazer isso? Podemos viver nossa vida com Atenção Plena? Somos capazes de viver no momento presente, de nos mantermos plenamente despertos e conscientes, enxergando as coisas como de fato são e não como gostaríamos que fosse?
A sabedoria consiste em poder discernir o que é verdadeiro, separando o falso do real. Ser sábio é ser consciente. Todos os exercícios de Atenção Plena representam treinamento no cultivo de uma percepção mais aguda. Estamos treinando para prestar atenção e realmente enxergar o que está à nossa frente. Isso é iluminação. Mas então, por que a maioria das pessoas não consegue chegar lá?
Existe uma linda história Zen sobre um monge que foi promovido a professor. Orgulhoso de sua realização, o monge foi visitar um mestre Zen. Quando chegou, tirou os tamancos de madeira e os deixou junto com o guarda chuva, na porta da frente. “Diga-me”, disse o mestre ao jovem professor, “quando você tirou os sapatos, colocou-os à direita ou à esquerda do guarda chuva”? É claro que o monge não se lembrava. Quando ouviu a pergunta, o monge percebeu que ainda tinha muito que aprender. Por que não prestara atenção aos sapatos, quando os tirara? Em que estava pensando? Por que não estava exercendo Plena Atenção naquele momento? Por mais que tivesse progredido no caminho, ainda havia muito a percorrer.
Perceba... Quando saímos da cama pela manhã, em geral queremos estar presentes em nossas vidas. Gostaríamos de prestar atenção a aonde vamos e ao que fazemos. Mas neste mundo moderno existem estímulos demais, e acabamos sendo atraídos em diversas direções ao mesmo tempo, o que torna difícil permanecermos focados no momento presente. Olhamos o celular, o whatsapp, deparamos com tantos convites sedutores, como ler as notícias, responder e-mails, considerar os anúncios que piscam à nossa frente. Tudo é muito tentador. As distrações, grandes e pequenas, nos afastam da Atenção Plena. Não é que as distrações, por si mesmas, sejam nocivas ou ruins para nós, apenas somos atraídos em sua direção como crianças inconscientes, sem capacidade de discernimento.
Do ponto de vista de Buda, as duas palavras mais importantes são, evidentemente, “olhos abertos”. A prática da Atenção Plena nos ensina a viver com consciência – de olhos abertos -, para que as partes menos conscientes de nós sejam iluminadas e o domínio do inconsciente abrandado.
Pense no monge Zen e na pergunta do mestre sobre os sapatos. Você está pronto para desenvolver aquele nível de Atenção Plena em sua vida¿ Pode ter consciência não apenas de onde deixou as chaves, os óculos ou o controle remoto, mas especificamente se colocou “os sapatos à direita ou à esquerda do guarda chuva”? Pense no nível de clareza e atenção que isso requer. Pense em como estaríamos despertos e no controle que teríamos sobre as nossas mentes, se conseguíssemos estar conscientes de tudo o que fazemos. Pensem no tempo, no dinheiro e na aflição que pouparíamos a nós mesmos. Sem falar no fato de que nossas mentes se tornariam extremamente poderosas.
Na vida, há momentos em que a falta de atenção acaba sendo realmente destrutiva e perturbadora; E Atenção Plena é sempre o antídoto para a negligência e para o hábito de ignorar as coisas.
Todos nós, às vezes, deixamos de prestar atenção às pessoas que amamos. De certa forma, somos todos um pouco negligentes na forma como cuidamos dos relacionamentos pessoais. Sempre é dito que não damos valor ao que temos até perdermos.

Achar que as coisas estão garantidas é o oposto da Atenção Plena, com sua ênfase na apreciação e na sutileza das coisas. Ela nos incentiva a perceber, intuir e sentir aquilo que estamos realmente sentindo e percebendo. Assim ficamos muito mais lúcidos e conscientes, e mantemos contato com nossos pensamentos e com os padrões habituais da mente e do corpo.

por Lama Surya Das

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