23 de out. de 2014

O Carma


Infelizmente, neste momento, a condição da maioria das pessoas e seres deste mundo é de total adormecimento e inconsciência. As pessoas estão presas às contaminações que trazem em suas mentes.
E não importa o tamanho da pirueta que possamos dar na vida e nesse mundo. Não importa a boa situação econômica alcançada. Nada disso resolve, é apenas mais ilusão. Vivemos presos, apreensivos, angustiados, com medo de sofrer, de sentir dor e buscando uma felicidade que não sabemos onde pode ser encontrada, ou no que consiste. Vivemos assombrados entre a esperança e o medo. Esperança de que nossa situação melhore ou permaneça bem, e temor de que tudo piore, de que possamos perder o que já conquistamos.
E, assim, a existência cíclica vai sendo impressa no interior da mente.
O resumo da ópera nos revela que o nosso “eu” vive experiências que na sua própria avaliação e julgamento, basicamente, são de três tipos: agradáveis, desagradáveis e neutras.
Aquelas experiências que o nosso “eu” considerar sendo agradáveis, que nos proporcionaram sensações prazerosas, naturalmente o “eu” fará tudo para repetir, para vivenciar novamente e novamente. A partir daí surge a energia de hábito do Apego, que nos conduzirá recorrentemente aos prazeres, êxtases, gozos, enfim, e poderá nos trazer impressões relacionadas aos reinos superiores ou celestiais.
Aquelas experiências que o nosso “eu” considerar como sendo desagradáveis, que nos proporcionaram sensações repulsivas, o “eu” fará tudo para afastar, repelir, evitar, fugir, a fim de não vivenciá-las novamente e novamente. A partir daí, surge a energia de hábito da Aversão, que nos conduzirá recorrentemente aos desprazeres, agonias, e poderá nos trazer impressões relacionadas aos reinos inferiores ou infernais.
Aquelas experiências que o nosso “eu” considerar como sendo neutras, que nos proporcionaram sensações nem prazerosas nem desprazerosas, o “eu” fará tudo para que elas permaneçam neutras. A partir daí, surge a energia de hábito da Indiferença, que nos manterá num estado de neutralidade, apatia, dúvida e medo, o que poderá nos trazer impressões relacionadas aos reinos intermediários da existência cíclica.

Neste momento, olhe bem para o nosso planeta... Veja como ele está ficando após tantas intervenções promovidas pela mente confusa, cheia de ódio, apego e de tanta indiferença do homem. Este maravilhoso planeta Terra, a nossa Grande Mãe, se parece muito com o paraíso, mas o homem o está desequilibrando tanto, que ele esquenta cada vez mais, e começa a ficar parecido com o inferno...
Jesus e Buda, além de visitarem o reino humano, falavam, enxergavam e ensinavam sobre um reino de profunda paz e felicidade aqui e agora mesmo. Este, porém, seria um mundo invisível à visão das mentes e corações encharcados em tantos venenos. Eles apontavam para a falta de sanidade e visão entre as mentes dos homens.
Jesus e Buda não vieram aqui para apontar para o céu, purgatório e para o inferno. Eles apontavam para a Ignorância, para a confusão e contaminações nas mentes e, especialmente, para a sanidade plenamente alcançável de se ter um coração sereno, livre e desobstruído. Eles apontavam para o fato de todos os seres humanos já serem portadores de um coração e mente de pura sanidade. Mas, desatentos, distraídos e acorrentados às camadas de acúmulos e hábitos, os seres humanos não conseguem vislumbrar ou experimentar tal essência pura, desobstruída e natural.
Agora você pode ver que, na verdade, a sanidade está sempre conosco, apenas não a reconhecemos. A nossa sanidade nunca nos abandonou. Estamos sempre completamente unidos a ela, pois ela é a nossa própria essência. Então, como religar o que nunca foi desligado - apenas esquecido? Este é o enigma (koan) da existência cíclica e o remédio de que necessitamos nesse mundo.
Quando chega ao seu coração verdadeiro e original, você está além da mente, além de “eu” e “não eu”, além da vida e da morte, além de samsara e nirvana, além de sofrimento e não sofrimento. Não importa onde esteja fisicamente, você habita as profundezas, onde seu coração permanece sempre intocado e perfeito. Não importa o que você sofreu e a todos os seres a quem impôs os seus obscurecimentos. Você liberta, espontaneamente e de uma só vez, todos os seres vinculados ao seu carma desde tempos sem início.
Quando alcança a sanidade, nem há mais caminho, pois esteja onde estiver, você já chegou! Seus pés andam por andar, sem pressa de ir ou ficar. Quando alcança a sanidade, você vê com nitidez e clareza que o universo inteiro é o seu coração e, na dimensão sutil, o universo inteiro é o seu templo.
Ainda que o seu rosto, a sua face, o seu corpo, a sua forma possam mudar, aparecer, desaparecer, ora aqui, ora ali, você está sempre no seu reino, no reino do seu coração e mente. E cedendo ao fluir maior da existência, você agora pode desfrutar, desperto, atento e consciente. Você repousa na sua essência profundamente misteriosa e mutante com o único propósito de prestar auxílio aos seres que sofrem sem saber.
O seu reino flui na sua direção, gerado pelo que você pensa, sente e faz agora mesmo. O seu reino vive se tornando manifesto, a cada momento, bem diante de seus olhos. Se houver ódio em seu coração e mente, cedo ou tarde, os frutos amadurecerão. Então, um mundo odioso virá até você. Mas, ainda assim, sempre será possível a transformação e sanidade. Mesmo num universo inteiramente hostil e odioso, você pode refugiar-se na sua pura sanidade, evitando que seu coração e mente se contaminem e passem a propagar obscurecimentos também.
Quando desperta dentro da sua própria mente, de repente, você não se sente mais como um ser castigado, exilado, oprimido, obrigado a viver “andando de elevador”, ou seja para cima e para baixo. Você compreende que qualquer lugar é o “Nirvana” e que você deve ir ainda mais além. Somente então a flor do profundo amor e compaixão poderá desabrochar em você, transformando obscurecimentos em sabedoria.

Profundo amor e compaixão significam apenas olhar para si mesmo até não haver mais “eu, meu, minha”. Então, você não cultiva nem sustenta, nenhum grande pensamento, nenhuma ideia, nenhuma estrutura mental rígida. Você apenas olha e vê o universo inteiro simplesmente como é: a pura flor da sanidade em sua mente e em seu coração. Nada a dizer. Apenas silêncio... Você sorri, e o pequeno botão de profundo amor e compaixão transforma obscurecimento e sofrimento em uma linda flor de sabedoria. A flor da sanidade desabrocha em seu peito.

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