23 de out de 2014

Bodhicitta: A mente iluminada do Bodhisattva


E o Mestre Zen diz
“Não se distraia, não se distraia, alcance um coração e uma mente purificados”.
“Não se engane, não se engane, alcance um coração e uma mente purificados”.

Este é o coração e a verdadeira expressão do despertar (Iluminação).
Alcançar um coração e mente purificados significa cultivar as nossas qualidades inatas, e seguir o caminho do despertar.
A diferença básica entre a mente iludida e a mente iluminada (desperta) é uma questão de estreiteza e de abertura. Quanto mais restrita e fechada for a sua atitude, mais centrado no ego você é. Quanto mais aberta a sua atitude, mais consciente você será do bem estar dos outros. Assim, todo caminho que conduz ao despertar passa pela abertura gradual do coração e da mente.
Com um coração e mente purificados e percebendo o sofrimento, nós instintivamente desejamos aliviá-lo por toda a parte – não apenas em nossa sala de estar, mas em todos os lugares, e não apenas a dor de nossas vidas, mas a dor na vida de todos.
É uma intenção gigantesca e inesgotável. Nós só precisamos dar um passo de cada vez. E por onde se começa?
Começa-se aqui e agora, tentando purificar nossos pensamentos e nossas vidas para que possamos ajudar, em vez de prejudicar, os outros.
Nós não temos que acreditar em carma, renascimento, iluminação ou qualquer coisa explicitamente religiosa ou esotérica para começar a praticar um coração e mente puros como forma de viver. Como disse o Dalai Lama: “Nós somos viajantes neste planeta. Ficamos aqui por noventa, cem anos no máximo. Durante este tempo, deveríamos tentar fazer alguma coisa boa, fazer algo útil com nossas vidas. Então, tente estar em paz consigo mesmo, e ajude os outros a compartilhar desta paz. Se você contribuir para a felicidade de outras pessoas, encontrará a verdadeira meta, o verdadeiro sentido da vida.
Mas como aplicar intenções impecáveis a este mundo selvagem que vemos ao nosso redor? Nossos pensamentos e intenções deveriam refletir uma pureza de coração e um sentido sincero de ligação com toda a humanidade. Assim, nossas vidas refletiriam generosidade, tolerância, esperança, perdão, honestidade e compromisso. E isto vale tanto para a sobrevivência da floresta tropical, quanto para a pessoa no quarto ao lado e, para a lesma que está tentando lentamente atravessar a entrada da garagem.
Às vezes é mais fácil sentir toda esta pureza de intenções com relação ao mundo do que com relação àqueles que estão em nosso ambiente imediato.
Por exemplo, a Ana. Ela vai se mudar em poucos meses, mas não avisou a colega com quem divide o apartamento. Como quer manter todas as opções em aberto, só planeja contar no último instante. Ela sabe perfeitamente bem que isto vai acarretar um problema para a colega, mas acha que esta é uma situação onde cada um se defende por si. Perceba... Muitas vezes é uma barganha: quanto custa para fazer o que sabemos ser o certo, comparado com o melhor que podemos conseguir para nós mesmos? Desta maneira nós nos separamos dos outros, o que tem um certo preço.
Outro exemplo é o Eduardo. O chefe dele tem mais de cinquenta anos, e os boatos dizem que a cabeça do chefe vai rolar porque a empresa quer uma imagem e uma liderança mais jovem. Se o chefe for mandado embora, Eduardo provavelmente será promovido para o lugar dele. Como é que Eduardo pode manter seus pensamentos puros e desejar ao seu chefe uma longa e saudável vida no emprego, sem que sua própria ambição por melhoria econômica venha colorir seus desejos?
Perceba... As intenções e os pensamentos com relação a outras pessoas ocorrem em muitos níveis diferentes.
A verdade é que não é fácil abandonar um ponto de vista egoísta, totalmente centrado no ego, e passar para uma perspectiva de abertura, amor e compaixão. Viver uma vida de amor, onde a mão e o coração estão completamente abertos, onde existem o perdão, a paciência e a resignação, requer muito trabalho interior. Mas é exatamente isso que precisa ser feito, passo a passo, se quisermos trilhar o caminho espiritual que conduz ao despertar (Iluminação).

Mente desperta é o coração luminoso da prática (Darma). Sabedoria e compaixão – verdade e amor – são absolutamente indispensáveis, apoiam-se mutuamente e são inseparáveis. A sabedoria clara, precisa, afiada como uma navalha, e a compaixão calorosa, protetora, de coração aberto – facilitam a rápida transformação na grande estrada do despertar.
Todos nós temos corações nobres e amorosos que nos são inatos, mas endurecemos e defendemos o nosso coração com nossa negatividade, nós o protegemos com raiva e o ocultamos com emoções hostis. Construímos forte armadura emocional para nos proteger dos sofrimentos da vida, mas esta armadura acaba nos mantendo tão insensíveis e imobilizados que não conseguimos mais sentir coisa alguma, nem sermos vulneráveis a nada, portanto incapazes de sentir uma compaixão sincera ou uma alegria espontânea.

É claramente impossível transformar nossos corações endurecidos e nossas atitudes enraizadas de um dia para outro. Mas ao longo do tempo isto pode ser feito, transformando a mente aos poucos e, gradualmente, abrindo nosso coração, desviando os pensamentos narcisistas das preocupações exageradas com ego e com as ansiedades pessoais, e focalizando-os em um amor altruísta e generoso para com todos os seres da existência.

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