27 de out de 2014

A Impermanência


A primeira reflexão que transforma a nossa mente diz respeito à profunda compreensão sobre a Impermanência.
Se olharmos para este mundo atentamente, veremos que tudo nele surge, permanece por certo tempo, depois desaparece completamente. Tudo é efêmero. Bens materiais, poder, fama, reconhecimento, dinheiro, beleza, juventude, saúde... Todas as coisas, sem exceção, incluindo a nós mesmos, estão sujeitas à mudança constante. Portanto, qual o sentido de nos “agarrarmos” ou prendermos fortemente às pessoas e coisas como se elas não fossem jamais mudar ou desaparecer de nossas vidas?
A reflexão sobre a Impermanência de todas as coisas, inclusive da nossa própria vida, pode nos ajudar a não nos apegarmos tanto assim, pois mais cedo ou mais tarde, seremos obrigados a abrir mão seja lá do que for. Tudo que um dia começa, um dia termina. Se não percebermos e compreendermos isso em profundidade, se não nos dermos conta de que tudo muda, será inevitável o imenso sofrimento que será gerado e que nos alcançará através da cegueira provocada pelo nosso apego.
Ainda que pareça muito real e nítido enquanto estamos vivenciando, todas as nossas experiências boas ou ruins, positivas ou negativas, também são passageiras, ou seja, são semelhantes a um sonho que temos à noite. Ele surge, nos faz rir ou chorar, nos faz sentir prazer ou dor, alegria ou tristeza, depois desaparece do mesmo modo como surgiu. Nesta vida, a maior felicidade que possamos experimentar vem e depois passa. O sofrimento, por mais doloroso que seja, vem e depois acaba também. Nada nesse mundo perdura para sempre.
Geralmente interpretamos a Impermanência como algo muito negativo, que nos rouba alguém ou alguma coisa pela qual tínhamos afeição. Todavia, se olharmos com olhos de sanidade, perceberemos que nenhum de nós sofre tão profundamente ou chora quando uma flor nos deixa, morre, murcha e apodrece. Ninguém desaba diante da folha seca, perdida, que rola ao vento nem lamenta o desaparecimento da brilhante estrela cadente que risca o firmamento. Ninguém chora por que a chuva passou ou retornou, por que os pássaros já não cantam mais... Então, quando sofremos a perda de alguém ou alguma coisa, precisamos discernir que nossa dor não vem da Impermanência em si mesma, mas sim, do Apego que havíamos cultivado profunda e descuidadamente. Não sofremos devido à transitoriedade das coisas, mas sim, por que queremos que as coisas permaneçam sempre bem do jeito ao qual nos acostumamos ou do modo como a elas nos apegamos. Sofremos devido ao nosso Apego à permanência, não devido à Impermanência.
Graças a Impermanência, nós podemos confiar que, algum dia, mesmo o maior sofrimento terá um fim. A Impermanência, além de desnudar o nosso Apego, é ainda a sua cura definitiva. Graças a ela podemos crescer e evoluir. Graças a Impermanência, aprendemos a enxergar o imenso valor e preciosidade de cada instante de vida. Cada momento, cada inspiração, cada amanhecer, cada dia, cada olhar, cada gesto, cada sorriso, cada pessoa, cada experiência é única e jamais se repetirá. Graças a Impermanência, apuramos o nosso olhar de maneira a não mais desperdiçarmos a imensa oportunidade representada pelo viver, respirar, estar vivo e testemunhar da vida em sua essência mais pura.
Se olharmos com olhos de sanidade, veremos que a nossa vida é como um sonho muito precioso e breve. Abrimos os olhos, nascemos. De repente fechamos os olhos, morremos. Num abrir e fechar de olhos, desenrola-se a nossa vida e, pouco tempo depois, ninguém mais lembrará de nossa existência.
Portanto, entre um momento e outro, precisamos estar atentos, presentes, sãos. Quando compreendemos como o processo do sofrimento é fabricado, quais são as causas, ele já não nos assusta tanto assim. A percepção e profunda compreensão da Impermanência de todas as coisas é uma das maravilhas capazes de nos iluminar a mente, nos ajudando na incessante tarefa de transformação interior e transcendência.
Porque tudo é como um sonho, os maiores amigos viram os piores inimigos e grandes irmãos se tornam terríveis rivais. Os amantes mais sedentos, de um dia para o outro, passam a se odiar, pois tudo flui e transforma como num sonho. Aquilo que parece sólido e seguro, por mais que agarremos, cedo ou tarde, se dissolverá no ar, desmoronando como um castelo de areia arrastado por uma onda do mar. Tudo se esvai, não há nada que possa ser retido, nem nome, nem forma, nem personalidade, pois tudo se altera e transforma, apesar do maior apego do mundo.

Precisamos acordar, despertar e estar profundamente conscientes, enquanto o fluxo maior de todas as coisas atravessa por nós e por nossas vidas. Se não despertarmos nossa mente, enquanto ela vive o sonho dessa vida, agarraremos cada coisa e situação, desavisados, aflitos e amedrontados, pois teremos aderido ao sonho. Ao invés de sermos dotados de sabedoria, plenamente livres e presentes, seremos capturados por um olhar apegado, aversivo, indiferente, perdido nos labirintos da ignorância. Seremos fantasmas vagantes, atravessando nossos dias como tristes escravos, amarrados às correntes do nosso próprio sofrimento e lamentação, sem discernir, vislumbrar ou desfrutar as infinitas maravilhas da vida, às quais estão disponíveis a todo aquele que se tornou capaz de uma inspiração consciente e chegou, cem por cento, íntegro, corpo coração e mente unidos, ao momento presente.

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